II Fórum Humanista Latino-americano - La Paz, 2007
JILATA NATA, KULLAKA NAKA
Irmãos e irmãs, amigos e amigas vindos e todos os países da América Latina, queridos irmãos e irmãs bolivianos que nos acolheram com tanto afeto e hospitalidade.Chegamos aos millares até esta terra sagrada para realizar nosso segundo Fórum Humanista Latino-americano. Nos dizem que a Bolívia é pobre. Quem sabe seja se medirmos em dólares. Mas se medimos em suavidade da sua gente, em bondade, é o país mais rico da Terra, e pudemos comprovar cada um de nós nestes dias.
Nós humanistas organizamos nossos Fóruns como um modo de contribui à necesaria e urgente integração latino-americana.
Hoje nenhum país pode sair sozinho da crise que nos levou a desumana globalização. Nenhum país pode sozinho. A globalização é básicamente um instrumento econômico para que os poderes financeiros e multinacionais controlem os estados nacionais e controlem as populações. A globalização tem um signo concentrador do poder econômico, do poder político, do poder militar. Fazendo desaparecer as diversidades de linguas, raças, estilos, culturas e visões da sociedade.
Frente a esse modelo asfixiante é que estão despertando novos movimentos na América Latina. Surge entre as novas gerações um novo olhar, o qual para diferenciá-lo da globalização, vamos chamar de “mundialização” O que é mundialização? É o fenómeno que se está vivendo hoje em dia, no qual as novas gerações estão buscando encontrar-se, no qual os povos estão buscando construir um novo futuro. Este é um processo que se vive hoje na América Latina. Vemos como na América Latina os povos buscam encontrar novas despostas. Certamente, os caminhos tradicionais não deram resultado. Caíram os socialismos reais. O neoliberalismo resultou um fracasso total desde o ponto de vista do melhoramento das condições de vida dos povos. Se faz necessário encontrar novos caminhos.
A visão humanista comprende que estamos em um novo momento, em que são necessárias novas formas de organização, que é desde a diversidade que se pode construir um prometo melhor, que é incorporando a partidos e organizações sociais num trabalho paritário, que compreende que hoje, mais que nunca, é necessária uma revolução, mas que esta debe fazer-se pela via da Não-Violência Ativa, e que se isto parece difícil, então o desafio é encontrar os caminhos para fazê-lo.
Esta busca está presente em toda região, buscando novo caminhos. Assim, talvez não podemos dizer que na América Latina se esteja vivendo uma revolução. Nem sequer uma etapa pré-revolucionária. Mas sim podemos observar um momento fascinante dos povos e sua diversidade buscando novos caminhos. Por isso somos otimistas que nossa Região avançará para uma maior justiça social, para uma democracia real, para sociedades em que a violencia de uns poucos deixe de oprimir a muitos.
E porque organizamos este Fórum aquí na Bolivia?
Em primeiro lugar para expressar nossa admiração pelo processo que aqui está desenvolvendo-se. Em segundo lugar para aprender dele. Em terceiro lugar para oferecer nossa ajuda, de todos os humanistas da região, para impulsionar esta verdadeira revolução Não Violenta.
Mas quem somos os que chegamos até La Paz? Disse esta manhã em Tiwanaku e repetirei aqui. Os humanistas são homens e mulheres de todo o planeta que dedicam sua vida a ajudar a superar a dor e o sofrimento dos demais. Num mundo em que se tornou habitual tratar-se mal uns aos outros, os Humanistas tem o estranho costume de tratar bem aos demais. Os humanistas são pessoas que expressam em seu compromisso social, em sua luta não violenta, seu contato com o Profundo, com o Sagrado.
Estamos aquí para manifestar que este processo nos interpreta plenamente.
Hoje queremos manifestar nosso agradecimento e compromisso de apoio a quem lidera este processo. Ao Presidente, companheiro e amigo Evo Morales Ayma
Nós Humanistas instauramos no Chle um Prêmio à Coerência. Não tem sido nada fácil encontrar a que dá-lo a cada ano. Não são muitos os coerentes nesses momentos de incoerência, de pragmatismo, de oportunismo. Em um mundo em que o valos central é o dinheiro que se possui, não há coerência possível. É um mundo cinza, violento, inumano.
A Coerência é essa conduta pessoal que consiste em pensar, sentir e atuar na mesma direção, orientando a vida para a superação da dor e do sofrimento dos demais.
Evo ganhou mais que merecidamente este prêmio.
Somente no primeiro ano de seu governo recuperou os hidrocarbonetos para seu povo enquanto em nossos paises seguimos presenteando os recursos minerais e energéticos às multinacionais.
Poucos meses depois de assumir convovou uma Assembléia Constituinte para ter um país mais justo e mais democrático. Estivemos nessa oportunidade em Sucre e vimos caminhar com orgulho, com alegria e com Força interior as mais de 30 nações. Escutamos nesse dia a Silvia Lazarte e nos comovemos até a alma com suas palavras de dor e esperança. Que difícil tem sido avançar frente aos mesquinhos interesses das minorias opulentas. Mas aí vai esse processo mostrando que este povo quer dignidade.
Evo realizou uma reforma agrária para que a terra renda para aquele que trabalha e deixe de ser terra baldia usada somente para negociar empréstimos com os bancos.
Se incorporou a Justiça comunitária.
Se está devolvendo todos os seus direitos e sobretudo a dignidade aos povos originários. Hoje wipala flameja orgulhosa em todo o país.
E o mais destacável: esta verdadeira revolução se fez sem violência.
Quero destacar a proposta de Evo realizada em Tókio de incorporar na constituição boliviana, um artigo que rechace a guerra como meio de solução dos conflitos. Enquanto nos demais países cresce a compra de armamentos, a Bolívia proclama sua vocação de paz. Esta proposta do Presidente é algo único no mundo, que obviamente foi silenciado pela imprensa a serviço dos interesses dos traficantes de armas. Mas nós humanistas escutamos sua voz e a temos amplificado aonde vamos.
Porque hoje é tempo para a Não-violencia. Hoje devemos sair desta verdadeira pré-história humana em que todas as relações estão baseadas na violência física, econômica, social, racial, sexual, étnica, cultural, religiosa, geracional.
E se falamos de sair da pré-história, permitam-me agregar um assunto mais íntimo: Quero agradecer a Evo pelo belíssimo prólogo que escreveu para meu livro “O Fim da Pré-história”. Sei que com homens como você, sairemos da Pré-história mais rápido.
Mas há outro aspecto que nos comote profundamente: a simplicidade de Evo. Nós humnanistas criamos faz alguns anos um termo: O Vírus de Altura. Este vírus muito curioso que ataca aos que chegam a cargos altos (não os que vivem muito alto como aqui em La Paz…) Ataca e curiosamente lhes destrói parte do cérebro que lhes fazem esquecer que chegaram até aqui pelo trabalho de milhares, que são parte de um processo e de uma equipe. Em minhas incontáveis viagens tenho me encontrado uma e outra vez com próceres que foram ferozmente atacados por este vírus e agora se sentem imprescindíveis, superiores, desconectanto-se totalmente da sofredora realidade de seus povos.
Pois bem. Evo não foi atacado por esse virus. Parece que é imune. Uma vez me disse: sou e sigo sendo um dirigente sindical que por estes 4 anos estou de presidente da República.
De minha parte quero compartilhar um presente que Silo fez a mim e a muitos outros que tem me servido como antídoto contra o vírus. Nos disse:
“Não deixes passar tua vida sem perguntar-te: “quem sou?”
Não deixes passar tua vida vida sem perguntar-te: “para onde vou?”
Não deixes passar um dia sem responder-te quem és.
Não deixes passar um dia sem responder-te para onde vais
Finalmente quero lhes contar uma conversa que tive com Evo e que sei que ele vai querer que eu compartilhe com todos vocês.
Quando vim em setembro convidá-lo para este Fórum, lhe disse: “Evo, os humanistas do mundo, que estamos em mais de 110 países, queremos firmar um protocolo em que explicitemos o que podemos fazer para ajudar ao processo boliviano. Ele me respondeu rápido como um raio: “Olha irmão, para ajudar-me não se necessita de nenhum protocolo. Os humanistas podem ajudar-me terminando em todo o mundo com o imperialismo e os exploradores…. e aqui na Bolívia… também. Isso é o melhor que todos podemos fazer”.
Em nome de todos os Humanistas do mundo, quero entregar a Evo este Prêmio à Coerência, realizado pelo artista plástico argentino Daniel Zimmerman, simbolizado em uma figura humana de bronze, em cujo peito tem uma luminosa esfera de cristal. Essa esfera de luz que todos levamos dentro.
Obrigado Evo
